Pergunta pra qualquer dono de restaurante o que mais tira o sono dele hoje e a resposta aparece antes de você terminar a frase: gente. Achar garçom, segurar atendente, formar equipe. O setor de bares e restaurantes convive com cerca de 500 mil vagas abertas no Brasil, e quase 90% dos empresários relatam dificuldade pra contratar, segundo a Abrasel.
E aqui está o detalhe que muita gente ignora: o salário médio do setor bateu recorde — e a dificuldade continua. 64% dos empreendedores apontam a falta de qualificação como principal entrave; 61% dizem que simplesmente não aparecem interessados. Ou seja: não é (só) uma questão de pagar mais. É um problema estrutural do mercado de trabalho — e ele não vai se resolver no curto prazo.
A conta que não fecha: salário recorde e salão desfalcado
A remuneração do setor vem subindo e a demanda está aquecida — e mesmo assim as vagas não fecham. Porque a concorrência por profissional não é mais só com o restaurante do lado: é com o aplicativo, com o home office, com outras áreas de serviço que oferecem fim de semana livre. A jornada de noites, feriados e domingos pesa na escolha de quem tem opção.
A realidade do freela (por pura vivência)
O que aprendi nesses anos atuando no mercado food é que o garçom, na maioria das vezes, leva o trabalho como bico. Geralmente já atua em outra profissão CLT durante o dia e, à noite, vai cansado, sem foco e por necessidade fazer o trabalho. Pra somar a essa equação, muitos restaurantes que precisam cortar custos não enxergam essa primeira linha do front com a real importância — e pagam seus freelas com diárias de R$ 80 a R$ 120. Pro dono, multiplicado pelo número de garçons e pelos dias, é bastante dinheiro. Mas pra quem já trabalhou o dia inteiro e tem que ir cansado, por qualquer outra oportunidade — às vezes até pelo sofá com Netflix — ele resolve não ir e deixa o dono do restaurante na mão. E o freela muitas vezes faz isso sem muito pudor, porque sabe que, se bater na porta do vizinho, lá também estão precisando. Ele não se preocupa em perder a oportunidade.
Outra coisa que vem nesse pacote é a falta de especialização. Com a alta rotatividade e essa visão de segundo trabalho, dificilmente esse profissional se especializa, estuda, quer se desenvolver na área e ser o melhor — quiçá aprender e gravar na cabeça o cardápio e como funcionam os pratos da casa pra explicar pro cliente na hora do pedido. Claro: pra toda regra há exceções, e tem muito freela melhor que muito fixo. Mas, na grande maioria, esse é o cenário do mercado food — e isso eu falo por pura vivência.
Enquanto a vaga não fecha, quem paga é o salão
Garçom sobrecarregado correndo entre 12 mesas, pedido anotado errado na pressa, cliente esperando 15 minutos por uma conta, avaliação ruim no Google que não fala "faltou funcionário" — fala "atendimento péssimo". O cliente não vê a sua dificuldade de contratar; ele vê a experiência dele. E, como vimos no artigo sobre pesquisa de satisfação, ele vai embora calado.
Como resolver (ou pelo menos mitigar) esse B.O.
Na minha visão, o atendimento é a primeira impressão de qualquer restaurante: ali já começa a experiência, e é ali que se define se a pessoa vai sair feliz ou chateada dessa aventura gastronômica. Claro que todas as outras etapas precisam se complementar, mas vamos focar na primeira. O caminho pra diminuir esse risco é o restaurante ter uma base mínima de garçons fixos — registrados mesmo, que tenham ali a sua principal função do dia. Isso vai exigir uma boa remuneração pra ele querer deixar de ser freela e se dedicar, e sim, vai aumentar os custos. Mas é isso que garante o bom começo da experiência: é essa pessoa que você consegue treinar e ajustar, porque sabe que ela vai estar lá todo dia, melhorando com o passar do tempo.
Com essa base consolidada, você passa pra próxima etapa: criar processos e usar ferramentas que deem suporte a essa equipe e a esse cliente. Unir bom atendimento a um sistema de pedidos em que o cliente não precisa ficar esperando o garçom: sentou, acessou o cardápio antes mesmo de alguém levar o físico, clicou e fez o pedido pelo menu digital — intuitivo, completo, com fotos de todos os pratos e descrições onde o cliente, sem perguntar pra ninguém, sabe como o prato é feito e pra quantas pessoas serve. Poder fazer isso no instante em que chega transforma de cara a experiência do cliente.
- Garçom deixa de ser "anotador de pedido" e vira anfitrião — atende mais mesas, com mais qualidade.
- Erro de anotação (e o prato refeito, e o cliente irritado) praticamente desaparece.
- O fechamento de conta deixa de ser gargalo no horário de pico.
- A casa opera com a equipe que TEM, sem depender da vaga que não fecha.
- E quem trabalha ali sofre menos pressão — o que reduz a rotatividade, a outra metade desse problema.
O cardápio físico vai pelo caminho do Guia Quatro Rodas
E eu sei que muita gente ainda acha que a experiência no cardápio digital é chata, que muita gente prefere o papel, que isso nunca vai virar realidade. Mas posso te garantir: da mesma forma que hoje ninguém mais usa um Guia Quatro Rodas no porta-luvas do carro, ninguém anda com calculadora ou câmera fotográfica, e ninguém vai mais ao banco nem que seja pra depositar um cheque, as pessoas vão sim preferir chegar, sentar, ler o QR Code, saber mais sobre os produtos e fazer o pedido sem erros de anotação, de forma instantânea, sem depender da velocidade de atendimento de cada garçom. E isso falando da geração atual — porque a próxima, que nasceu com o celular na mão, nem vai saber direito o que é um cardápio físico, do mesmo jeito que não sabe o que é um telefone fixo, um fax ou um videocassete.
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