Pergunta rápida e honesta: quanto custa, exatamente, o prato mais vendido do seu restaurante? Não o preço que você cobra — o custo. Quanto de carne, pão, queijo, molho, gás, embalagem e desperdício vai embora a cada unidade que sai da cozinha. Se você travou pra responder com número, você não está sozinho: a maioria dos donos de restaurante precifica no olhômetro, copiando o concorrente ou “sentindo” o valor. E é esse ponto cego que faz restaurante cheio fechar o mês no vermelho.
Por que precificar no olhômetro é tão perigoso
Quando você não sabe o custo real de cada prato, três coisas acontecem — todas ruins. Primeiro, você pode estar vendendo o seu carro-chefe no prejuízo: quanto mais vende, mais perde, e o movimento só disfarça o rombo. Segundo, você deixa dinheiro na mesa em pratos que poderiam custar mais sem espantar ninguém. Terceiro, quando o custo do insumo sobe (e ele sobe), você não percebe a margem derretendo até o caixa apertar. Preço no chute é uma aposta que você faz todo dia sem saber se está ganhando ou perdendo.
A base de tudo: a ficha técnica
Ficha técnica é a “receita de custo” do prato. É a lista de cada ingrediente com a quantidade exata usada e o custo daquela porção. Parece trabalhoso, mas é o documento que transforma achismo em número. Um exemplo simples, um hambúrguer:
- Pão brioche: R$ 1,20
- Blend de carne 180g: R$ 5,40
- Queijo cheddar 2 fatias: R$ 1,60
- Bacon 30g: R$ 1,10
- Molho da casa + picles: R$ 0,70
- Embalagem (se for delivery): R$ 0,90
- Custo total do prato (CMV unitário): R$ 10,90
Pronto: agora você tem o número que faltava. Esse R$ 10,90 é o CMV (Custo da Mercadoria Vendida) daquele hambúrguer — o mesmo CMV que aparece na DRE. Sem a ficha técnica, ele é um mistério; com ela, é a base de qualquer decisão de preço.
Do custo ao preço: markup e margem, sem complicar
Saber o custo é metade do caminho. A outra metade é transformar custo em preço de venda cobrindo tudo o que a ficha técnica não mostra: impostos, taxa de cartão, aluguel, folha, energia — e, claro, o seu lucro. É aqui que entra o markup. De forma simples: você define quantas vezes o custo o preço precisa ser pra cobrir todas as despesas e ainda sobrar. Uma forma prática de pensar:
- Custo do prato (ficha técnica): quanto o prato consome de insumo.
- + Custos variáveis sobre a venda: impostos, taxa de cartão/app (um % do preço).
- + Rateio dos custos fixos: a fatia de aluguel, folha e energia que cada prato precisa ajudar a pagar.
- + Margem de lucro desejada: o que você quer que sobre pra você.
- = Preço de venda com base em número, não em chute.
Não existe um markup mágico único — ele depende da sua estrutura de custos. Por isso copiar o preço do concorrente é tão arriscado: o aluguel dele, a folha dele e o volume dele não são os seus. O preço certo é o que fecha a SUA conta.
O problema da planilha: o custo muda, a sua conta não acompanha
Muitos donos até montam a ficha técnica uma vez, numa planilha, e respiram aliviados. O problema aparece três meses depois: o preço da carne subiu 15%, o do queijo 8%, a embalagem encareceu — e a planilha continua com os valores antigos. Aquele hambúrguer que custava R$ 10,90 agora custa R$ 12,40, e você segue cobrando como se nada tivesse mudado, com a margem escorrendo em silêncio. Ficha técnica não é um documento que você faz uma vez; é um número vivo, que precisa se atualizar quando o custo do insumo muda. Numa planilha, isso vira um trabalho manual que ninguém mantém. Num sistema que liga o estoque à ficha técnica, o custo do prato se recalcula sozinho quando você atualiza o preço de compra — e o preço de venda pode acompanhar antes de a margem virar prejuízo.
Por onde começar esta semana
- Escolha os 5 pratos mais vendidos — eles respondem pela maior parte do seu faturamento.
- Monte a ficha técnica de cada um: ingrediente, quantidade exata, custo da porção.
- Some e descubra o CMV real de cada prato. Prepare-se pra alguns sustos.
- Compare o CMV com o preço atual: algum campeão de vendas está com margem apertada demais?
- Ajuste o que estiver no vermelho e defina um processo pra revisar quando o custo do insumo mudar.
Saber o custo do prato não é firula de restaurante grande — é o básico que separa quem lucra de quem só se movimenta. Você não precisa de um MBA pra isso, precisa de método e de um número que se mantenha atualizado. A partir do momento em que cada prato do seu cardápio tem um custo conhecido, você para de apostar e começa a decidir. E decidir com número, num setor de margem apertada, é o que mantém a porta aberta.
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